torcida única: solução ou preguiça?
- Giulia Vanni

- 13 de mai. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 17 de mai. de 2024
Quando falamos de violência no futebol, a solução mais simples e comentada parece ser a adesão de torcidas únicas nos estádios.
No Brasil, o destaque vai para os clássicos paulistas. Desde a proibição de adversários no setor visitante, não se pode dizer que a violência diminuiu ou acabou — ela apenas mudou de local. Até porque a maioria dos casos não acontecia dentro dos estádios de futebol. Os problemas se concentravam na entrada e na saída.
Na Bahia, a mesma coisa. Torcedores de Bahia e Vitória pedem a volta do setor de visitante desde o incidente do "Bavi da Paz". O BEPE discorda.
Vejamos um caso mais extremo: o campeonato argentino conta com torcida única em todos os jogos na província da capital há mais de 10 anos. Apenas nas partidas em cidades consideradas mais seguras, como Córdoba, são permitidos os hinchas adversários.
E a violência nos estádios dos hermanos? Diminuiu?
No recorte de cinco anos antes da proibição (em 2013), o número de incidentes relacionados ao futebol era de 200. No mesmo recorte temporal, cinco anos depois, o número subiu para 361. Em 2014, ano seguinte à proibição, o futebol argentino bateu o recorde de mortes: 17 vítimas.
A medida foi ineficaz e contribuiu para a criação de toda uma geração de torcedores que não sabe lidar com adversários em um ambiente natural de rivalidades que deveria ser o futebol.
Das 101 mortes contabilizadas pela ONG, de 2006 a 2017, 54% ocorreram em brigas entre torcidas de um mesmo clube, enquanto 31% aconteceram em confrontos entre torcedores de times diferentes. 6% vem de repressão policial e 9% de acidentes.
A título de comparação, vejamos os países mais “modernizados” e “desenvolvidos” no esporte bretão: mesmo após ascensão e declínio do hooliganismo, a Premier League conta com torcida visitante em todos os jogos.
Quando falamos de torcida única nos estádios como a única alternativa para acabar com a violência, é preciso levantar algumas questões: será que a proibição não isola os torcedores em uma realidade homogênea inexistente? A medida é realmente eficaz (de alguma forma ainda desconhecida) ou é uma alternativa preguiçosa para diminuir o policiamento e a cautela na entrada e saída dos torcedores? Não seria importante levar em consideração o zelo pelo espetáculo que é o futebol e sua essência? Ou será que não passa de uma ideia conservadora?
As mortes e os casos de violência continuam acontecendo — até de forma mais intensa e frequente.
Imagem de Capa: El Cilindro de Avellaneda, por Inés Lucía Vergottini (@racinganalogico). Câmera: Olympus Stylus epic.



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